quinta-feira, 11 de outubro de 2012

domingo, 17 de maio de 2009

F(r)ASES - 7


"As mulheres combatem nos filhos os defeitos do marido." (Carmen Sylva)

É uma opinião simplista e redutora. Mesmo quanto "as coisas" correm mal, as mulheres, enquanto esposas e enquanto mães, são seres excepcionais a muitos níveis.

É uma opinião ambígua. O que é um defeito? Qual a fronteira entre "defeito" e as "coisas que ela não gosta nele"? Que fronteira tão ténue: ser calado e reservado é defeito?

Aquela frase é apenas uma citação, fora do seu contexto. Mesmo assim, não me revejo nela. Porque as coisas não são assim. Mas quando acontece serem assim, instala-se um triângulo relacional irrespirável: mãe <--> filho <--> pai.

Diz a Mãe
- "Não podes serem calado como o teu pai". O que procura verdadeiramente a mãe com esta abordagem, mesmo que não a explicite tão claramente e seja mais subtil na forma de actuação? Que o filho seja quem é? Ou que o filho não seja como ela não quer que ele seja? E qual o resultado: apenas confusões e revoltas ou algo de mais positivo?

O Pai
. Como se sente ele, comentado assim perante o filho? É possível não ver no comentário um ataque à sua personalidade? Ele, que conhecerá melhor do que ninguém, as razões para ser calado com a esposa, como sentirá a pressão feita sobre o filho? Angustiá-lo-à a possibilidade de o filho vir também a ser arrastado para um mar de silêncios?

O Filho
. Talvez encontre alguma justiça no comentário: bem sabe que a mãe sofre com os silêncios do Pai. Talvez intua alguma injustiça no comentário: bem sabe que o Pai sofre com a pressão da mãe. Confuso? Não: as crianças têm todo o direito a terem os pais que amam mas vistos pelos seus olhos e não pelos olhos de outros. Eu gostava de ver a Amazónia ao vivo, mas não sinto graça nenhuma quando ouço, alguém que lá foi, a contar-me como é...

sábado, 9 de maio de 2009

F(r)ASES - 6

"Sabendo fiar, não desperdices fio; sabendo falar, não desperdices palavras" (Provérbio do Laos)


Há tanta gente em tantos lados a saber tanto sobre esta coisa tão simples. Mas há tanta gente em tandos lados a fazer tanta asneira com as palavras... Há tanta gente arrependida do uso que deu a uma palavra. Infelizmente, arrependermo-nos de termos usado uma palavra não é exactamente o mesmo que nos arrependermos de termos usado fio a mais...

Sim, somos capazes de ver o desperdício material: na comida que fica no prato; na roupa que não usamos; nos montes de sacos de plástico das compras; na água do banho; etc. Nisto tudo, o desperdício salta à vista. E somos sensíveis a ele.

Mas não somos capazes de notar o desperdício de palavras. Ditas a mais, sem necessidade. Sem utilidade. Sem sentido.

Os lixos, restos dos nossos desperdícios materiais, são reciclados, reaproveitados.

E o que é que acontece às palavras que desperdiçamos? Ficam a acumular-se, como lixo, dentro de quem as disse e de quem as ouve. É muito difícil reciclá-las e voltar a dar-lhes uso.
Palavras feias dificilmente voltam a entrar na moda como a roupa velha.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

ROMANTISMO

Vi ontem na entrevista de António Pedro Vasconcelos a Alexandra Lencastre.
Vi ontem na entrevista de António Pedro Vasconcelos a Alexandra Lencastre.
Vi ontem na entrevista de António Pedro Vasconcelos a Alexandra Lencastre.

Pronto: já disse 3 vezes - estou mesmo acordado.

António Pedro Vasconcelos falou de uma certa coisa. Uma coisa em que eu nunca tinha pensado de forma explícita, mas que sentia. Sentia sem contudo ser capaz de traduzir num pensamento. Sentia sem ser capaz de explicar por palavras. Ouvi António Pedro Vasconcelos e subitamente encontrei essas palavras.

António Pedro Vasconcelos acha que as mulheres não são românticas - românticos são os homens. Alexandra ficou atónita, com ar de quem quer vender cara a derrota, e questionou-o. E ele disse simplesmente: "As mulheres não são românticas, gostam é de homens românticos". Ela calou-se...

E eu a pensar que estava sózinho no mundo...

Sem mais palavras.

sábado, 11 de abril de 2009

F(r)ASES - 5

"Nunca reze pedindo cargas mais leves,
mas sim ombros mais fortes."
(Philips Brooks)



Oh bichinho: não vale a pena sentares-te, pedindo a salvação. Ou fazes pela vida ou vais lamentar-te lá para dentro. Costuma-se dizer: "Fia-te na Virgem e não corras".

Um casamento mal sucedido pode levar-nos a sentar, esperando que o destino se mude. Mas uma coisa é certa: se não queremos que o bico nos triture, temos de ser nós a agir...

domingo, 5 de abril de 2009

RECICLAGEM

A imagem mostra estimativas do tempo que os materiais demoram a decomporem-se. Um filtro de cigarro demora 5 anos a decompor-se, isto é, durante 5 anos é um problema para a natureza: a natureza só absorve o filtro do cigarro ao fim de 5 anos.

Estes tempos de decomposição são tão elevados, que afectam a qualidade de vida do nosso planeta.

Daí a importância da reciclagem dos resíduos, dos restos dos materiais que nós usámos e deitámos fora. Reciclar “é uma forma de valorizar um material que já foi utilizado, transformando-o noutro material útil”.

Eu, Jacinto Lúcio, sinto-me como um resíduo do meu casamento. Sinto-me como os restos de uma coisa que já deu alegrias, felicidade, prazer e bem estar, como um carro velho, uma lata de coca cola ou umas calças rotas.

Se eu, Jacinto Lúcio, resíduo do meu casamento, constasse desta imagem, que tempo indicaria como necessário para me reciclar?

Retomo esta ideia: “reciclar é uma forma de valorizar um material que já foi utilizado, transformando-o noutro material útil”. Os materiais reciclam-se para voltarem a serem úteis aos outros. Eu quero retomar o meu potencial para os outros. Mas também para mim próprio. Ninguém dá sem ter para dar…


Reciclar é preciso. A começar por mim!

quinta-feira, 26 de março de 2009

F(r)ASES - 4

"Depois de casados, o Homem e a Mulher passam a ser as duas faces da mesma moeda: não se podem ver mas andam sempre juntos" (autor desconhecido)

Um pouco de humor não faz mal a ninguém ;-)

terça-feira, 24 de março de 2009

F(r)ASES - 3

"Qualquer outro terá todos os meus defeitos, mas nenhuma das minhas virtudes." (Pablo Picasso)


Grande frase. Useia numa discussão: o efeito foi tremendo. Ela ficou a pensar no como tem desvalorizado as minhas especificidades. E, sobretudo, eu também.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

F(r)ASES - 2

"Sou velho e já passei por muitas dificuldades, mas a maioria delas nunca existiu" (Mark Twain).

É: muitas vezes somos mesmo nós que complicamos a nossa vida...

PUDIM DE COPO

Pudim de Copo: a receita está aqui. A minha mãe sempre fez Pudim de Copo e foi com ela que eu aprendi a gostar dele.

Hoje tirei a tarde para "outras coisas". Vou fazer Pudim de Copo. Os meus filhos também o associam às delícias da avó, que mora longe.

É sempre uma festa comermos Pudim de Copo: o paladar e a macieza, satisfazem as exigências da língua; ser um doce antigo na família, dá conforto ao coração e aos afectos. Por tudo isto, não são raras as brigas do tipo "comeste mais do que eu" ou "só há uma fatia? Eu ao almoço não comi...”.

Com o Pudim de Copo vou tentar explicar porque é que não concordo com este post que recebi aqui no Blog: "Qual a razão de viver consecutivamente infeliz. Porque não o divórcio? Não é certamente pelos filhos. Tentamos sempre esse argumento quando não temos coragem de seguir em frente. Será que vale a pena viver assim?".

Em parte é verdade. Os medos, as dúvidas, as esperanças, etc, empurram-nos para trás de pequenas ou de grandes desculpas e nós deixamo-nos empurrar com uma grande facilidade. Também pode aparecer o comodismo: sem uma alternativa de vida consistente, vamo-nos deixando ficar. E depois outra coisa qualquer.

Confesso: em mim, há ou houve disso tudo um pouco. Mas pressa, não. E os filhos ajudam (determinam?) essa falta de pressa. A minha vida não é mono-facetada. Não é só um casamento infeliz. Acordar os filhos, levá-los à escola, estar com eles, vá lá - também brigar com eles, assistir à evolução deles, ser posto de lado por eles, aprender com eles, melhorar-me com eles, etc, enfim, viver com e por eles, é uma faceta importante da minha vida.

Afastar-me de casa poderia privar-me disso. Poderia, pois ainda não estou certo de que não me viesse a arrepender de não ter partilhado o tecto com eles um pouco mais. Por mim. E por eles.

Talvez ainda não esteja com coragem para ir em frente. Mas isto dos filhos, para mim, não é um mero expediente. Quero deixar de ser marido mas não quero deixar de ser Pai. Quero construir, com calma, uma alternativa de vida que não ponha em causa a minha relação com os filhos.

Por assim sentir as coisas, coloquei há tempos, aqui no blog, este poema de Miguel Torga: "Recomeça / Se puderes / Sem angústia / E sem pressa". Quando puder, recomeçarei. Sem pressa...

Hoje tirei a tarde para "outras coisas". Vou fazer Pudim de Copo. Para os meus filhos. Os meus filhos adoram: e eu adoro ASSISTIR à felicidade deles.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

JÁ GASTÁMOS AS PALAVRAS

(... a propósito das discussões do post anterior...)







(Eugénio de Andrade)


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava, porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

DISCUTIR: AS DUAS FACES DA MOEDA

Quando uma discussão para nada nos serve. Nem para nos aproximarmos do outro, sem termos de confessar o desejo e a necessidade. Nem para acalmarmos a nossa tensão arterial. Nem para, maldosamente, mostrar ao parceiro que ele só sabe falar aos gritos. Nem para nos reconciliarmos. Nem para nos zangarmos ainda mais.

Quando a discussão se torna emocionalmente inóqua. Não nos irrita. Não nos estraga o sono. Não nos faz sentir mais aliviados. Não é coisa que lamentemos que esteja a acontecer.

Quando duma discussão deixamos de tirar algum proveito. Porque nada de instrutivo nos traz para percebermos melhor o que está em jogo. E porque já deixámos de perceber o que está em jogo e já nem conseguimos hierarquizar os problemas que nos envolvem.

Quando uma discussão nos custa menos do que uma conversa civilizada.
Quando já nem discutimos.
Nessa altura.

Nessa altura percebemos melhor que as discussões, se não aproximaram, de alguma forma alimentaram o relacionamento. À falta de melhor, permitiram estabelecer alguns vínculos e canalizar algumas energias menos positivas.

Não tenho saudades de um tempo de discussões esgotantes e estéreis. Mas sinto, ironicamente, que estou num ponto de chegada que, de alguma forma, teria dado jeito ter sido um ponto de partida no casamento: ser capaz de resistir a uma má discussão.

Agora é que eu estaria pronto para elas? :-)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

APOIO EM SITUAÇÕES DE RUPTURA

● Tenho reparado, com muito gosto, que há uma série de pessoas que seguem este meu blog com alguma regularidade. Não são nenhuma maré de gente, mas serão por certo pessoas que se identificam com aquilo que eu escrevo, com aquilo que eu vivo. Não nos conhecemos, mas partilhamos concerteza sentimentos, emoções... enfim, atravessamos momentos e problemas semelhantes.

● Contudo, apenas lêm… mas não comunicam, não escrevem para cá, não se expõem mesmo a coberto do anonimato que está implícito. Nalguns casos mandam-me um mail… mas são poucos os casos.

● Ora, a experiência têm-me mostrado:

A vantagem do desabafo: “deitar” cá para fora junto de pessoas que sinto que me compreendem porque se identificam com o meu problema, dá-me um imenso alívio…

A vantagem da partilha do problema: pessoas que estão fora do meu ambiente por vezes fazem-me reparos e chamadas de atenção que, por serem independentes e não viciados, me têm ajudado a enfrentar o meu Cabo das Tormentas.


● Foi importante para mim começar a descobrir que ganho novo alento e nova coragem junto de outros em situações semelhantes, pois:

Há problemas que eu vivo e que não são estranhos à raça humana, como me fazem crer cá em casa: são comuns a muita gente, existem em muitos lares. É-me muito confortável ver isso, preto no branco, ao conversar com outros, dá-me muita convicção! Saber que os meus problemas são comuns a outros torna-me num ser mais “simples”, mais "natural”, menos “bizarro”, enfim, mais "humano". E o mesmo se aplica no vice-versa :-)

Numa discussão de casal, percebemos melhor o “outro” (motivações não explícitas; vícios de conversação; …), relativizamos melhor o que nos parece ameaçador, enfim, “situamo-nos” melhor se conhecermos experiências de outros… a quem até somos capazes de dar bons conselhos! Por exemplo, dar valor ao factor “tempo”, à paciência para esperar o melhor momento para…

● Porque partilhar problemas faz bem, renovo o desafio: acompanhem este blog mas ajudem-me com os vossos comentários. Ou directamente com comentários no Blog ou enviando um mail para jacinto.lucio@gmail.com


● Fico à vossa espera.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

VOTO PARA 2009

RECOMEÇA

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

(Miguel Torga)

domingo, 28 de dezembro de 2008

DÚVIDA DE NATAL


É Noite de Natal em casa da família de origem.

O momento da troca de presentes vai chegar. Fico aflito à medida que vou antecipando o pouco à-vontade com que irei receber a prenda dela. E dar-lhe a minha. Que sensação estranha: sentir-me mal a dar e a receber coisas que quero dar e receber.

Em anos anteriores já houve algum incómodo. Mas este ano a encenação parece-me uma verdadeira fraude. A mim. Aos filhos. À família. Acho que não é a troca de presentes que me custa: é fazê-lo sem assumir a ruptura do casamento, instalada há tanto tempo. A verdade é que eu vivo uma desunião de facto.

Olho os filhos vezes sem conta: misturam verdadeira alegria com um nervoso miudinho, acho que: nostálgicos dos tempos do Pai Natal em que pai e mãe, cúmplices, faziam natais mais sinceros e mais verdadeiros enquanto festas da família; cúmplices dos pais na encenação em curso. Simplesmente horrível: isto não é educar.

Comecei a interrogar-me até que ponto não será um gesto de amor aos filhos acabar com uma situação que os abala imenso, abdicando de viver na casa deles.

Abdicar é diferente de abandonar: penso num abdicar como uma renúncia generosa, com sentido de perda pessoal mas para bem dos outros (dos filhos).

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

DESENCONTROS E ENCONTROS

(Miguel Torga)
Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada
.
****
Livro de Horas

Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.
(...)
Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

"AJUDAR" OU "COLABORAR" ?

Ás vezes, dá vontade de as "ajudar" assim.
É recorrente ouvir-se uma opinião muito politicamente correcta alinhada com as seguintes frases: os homens ajudam pouco ou nada as mulheres no trabalho de casa; sobre elas recai o trabalho doméstico exercido em simultâneo com a profissão; os homens chegam a casa com o objectivo de se sentar em dois lugares: primeiro à mesa e depois em frente da televisão.

● A luta das mulheres pela igualdade teria conduzido, nesta perspectiva, a um resultado menos igualitário: elas lutaram pela igualdade (p. ex., pelo direito ao exercício de uma profissão) mas tiveram de acumular as antigas com as novas responsabilidades.

● Percebo o alcance deste pensamento e penso que ele está ainda muito enraizado na sociedade portuguesa. Muito, mas não completa nem esmagadoramente presente. E já é tempo de enriquecer o discurso vigente com as novas realidades: a dos maridos e pais que gostam e querem participar nas actividades de casa.

● Digo participar e não ajudar. Essa é uma diferença fundamental. E que, em meu entender, denuncia alguma hipocrisia naquele discurso politicamente correcto. De facto, pergunto: é impressão minha ou as esposas não dizem mesmo que elas ajudam os maridos em casa? Soa mal dizer isso, não soa? Pois, encarando o casamento moderno numa óptica de igualdade, também me soa mal ouvir dizer que é o marido quem ajuda a mulher. Ou há moralidade ou a desigualdade é para os dois lados...

● Mas o termo ajudar permanece nos casamentos "modernos"... Porquê? Acho que às mulheres custa perder um certo protagonismo em casa. Ao fim e ao cabo, ser responsável pela lide doméstica dá poder: como se organizam as coisas, como se educa os filhos, etc. Ter o marido a ajudar nisso é uma coisa; participar nisso com o marido é outra coisa.

● Se o casamento funciona mal e se o homem adoptar a postura de querer participar das tarefas domésticas, tal será uma inevitável causa de atritos. E cada vez mais há homens que o querem, que gostam de cozinhar, de tratar dos filhos, de fazer compras, de organizar os espaços e os horários, etc. Isto trás ao de cima o peso da tradição matriarcal: as mulheres acham-se com uma legitimidade e uma competência melhores para tratar de tudo isso e simplesmente não o consentem (de forma directa ou indirecta): quem se queixava por o marido não fazer nada, agora estimula-o a tal, recorrendo (se for caso disso) a outras ajudas (mãe, irmãs, vizinhas, amigas…).

● Para o homem isto é desesperante e quase seguramente uma batalha perdida.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

F(r)ASES - 1

A esperança não é a última coisa a morrer.
É a primeira que nasce quando tudo parece perdido...

OLHA PARA O QUE EU TE DIGO.

  • Hoje, outra vez de novo as coisas do costume. Que de novo não têm nada, amanhã vão voltar a ser assim.

  • O que eu faço, faço mal. “Aquela” tarefa faço do meu jeito? É porque não quero aprender a fazer melhor. Se eu fosse razoável, se visse as coisas com olhos de ver, sem medos, com abertura, com sentido crítico…, já tinha tirado uma conclusão: ela faz isso de uma maneira muito melhor.

  • Quero ter a minha liberdade de opção, o que não é igual a rejeitar à partida as opiniões dela: “a minha maneira de pôr a mesa é diferente da tua? Percebo a diferença, mas gosto da maneira como eu a ponho…”. Às vezes nem é o resultado final da tarefa que está em causa, mas a sequência das operações que são feitas…

  • Com o tempo fui-me sentindo a ser transformado num mero apêndice da cabeça dela, um robot acrítico que fazia o que lhe diziam: “faz como te digo”, “faz agora”, “desculpa interromper”, “logo à noite vai…”, “já te disse que…”, etc. Numa certa altura, ser feliz implicou ter mais respeito pelos meus gostos, pelas minhas preferências, pelas minhas liberdadezinhas, por não ter medo de, às vezes, não fazer o que e como ela queria.
  • Não quero uma vida mecanicista, em que tudo se limita ao “ser mais operacional”, “mais económico”, “mais saudável”, “mais racional”, “mais óbvio”, mais tudo menos mais satisfatório para mim. Porque me dá menos prazer. Porque não se torna natural para mim. Porque sistematicamente contraria os meus ímpetos, levando-me a um permanente estado de conflito interior e de desgastante autocontrolo.
  • Durante algum tempo afastei-me de algumas tarefas. Para evitar conflitos. Mas isso não me fez mais feliz. Decidi voltar a fazê-las. Gosto disso, preciso disso. Luto pelo meu espaço, luto por mim, pela pessoa que sou.
  • Isso fez voltar os mimos antigos: “não estás a ser razoável”, “não sabes ver as coisas”, “estás cheio de medos que te paralisam a capacidade de evoluir”, “não tens abertura aos outros”. É difícil lidar com atitudes destas. E amanhã vou voltar a ouvir tudo isso, quando for …

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

HOSTILIDADE DOS FILHOS


Ontem aconteceu.

O meu adolescente anda irritadiço: início das aulas; início das actividades de ginásio; readaptar-se a amigos e amigas que nas férias, tal como ele, cresceram mais um palmo e mudaram de feitio; sono desregulado; hormonas aos saltos; mau ambiente em casa; ... Tudo contribui para o seu estado intranquilo.

Hoje despejou o saco sobre mim. Confesso: não gosto que isto aconteça, mas sei que às vezes tenho de ser o seu saco de boxe. Houve tempos em que não compreendia essa sua necessidade e reagia mal, mas hoje tento fazer desses momentos oportunidades de aproximação.

Mas ainda não lido bem com os casos em que ele puxa de palavras que me põem em causa perante a mãe. Palavras que eu reconheço das que ela me diz. Não que eles não possam ter ideias comuns – podem. Mas anda no ar um certo perfume manipulativo…

Ao fim dum certo tempo ela veio à conversa. E foi aí que o rapaz acabou por se irritar e desapareceu! Ficámos os dois, o momento ideal para o inevitável "estás a ver, até os teus filhos dizem de ti que...". Pois... dizem, sim, sei que não sou um anjo.

Mas a verdade é que ele não conseguiu adormecer nessa noite: fui para o quarto dele, conversámos lindamente, entendi-o, entendemo-nos. Depois disso, eu ainda fui trabalhar e ele adormeceu com carita de anjo!

E eu também adormeci mais feliz!